domingo, 28 de agosto de 2016

Três poemas de Marly de Oliveira



Pior que o cão é sua fúria

Pior que o cão é sua fúria,
pior que o gato é sua garra,
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.


Perdi a capacidade de assombro

Perdi a capacidade de assombro
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.


CERCO DA PRIMAVERA

5.

Molhava os cabelos negros
nas águas da noite, quando
cheio de sombra acendeste
uns olhos cor de limão,
iluminando o silêncio
com o simples tocar de mão.

Um rumor de vinho claro,
de bocas e mãos unidas
e um cheiro de mel e flor,
rasparam, ai, como espada,
meu corpo cheio de noite
e o teu, perdido de amor.

Por certo que não queria,
mas tinha a cintura e jeito
ao teu abraço achegados,
e na sombra relumbrava
a água verde dos teus olhos
nos meus cabelos molhados.

Tremores de vento e lua
encabritavam-me o sangue,
e penas de sal e fogo
talavam o silêncio escuro,
ferindo nossas cadeiras
e amarfanhando o chão duro.

Em frio e fogo de amor
apenas luz se alongaram
curvados talhes desnudos.
E nas sombras o silêncio
agitava como franjas
seus longos braços agudos.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Descobrimento, poema de Mário de Andrade

Salvador Dali 
Descobrimento
Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A ÁRVORE


(Brueghel o Velho e Rubens)




Era uma árvore, no meio do jardim
sabia a verdade das coisas: Adão e Eva
a esconderem os olhos do seu próprio sexo;
ou os querubins com uma espada
torneada a fogo,  que  guardaria
a melancolia de um jardim vazio.


21-07-2016

© João Tomaz Parreira

sexta-feira, 8 de julho de 2016

DISCURSO SOBRE A ÁGUA VIVA

(Alonso Cano)


Quero nomear-te e a única coisa que sei
Do teu nome é o meio-dia e o peso
Do sol sobre a ânfora
Do teu corpo, sobre a tua cabeça
Como um lençol de luz, quando procuras
Apenas  a sombra
A única coisa que sei, quando te nomeio
Formosa mulher de Samaria
É a força nas tuas mãos quando levantas a água
É a antiga submissão de fêmea
Que canta o cântico plangente da sua vida.


05-07-2016
© João Tomaz Parreira 



quarta-feira, 22 de junho de 2016

DESCRITIVO DO AMOR NO CÂNTICO DOS CÂNTICOS


A sombra do meu amado faz arder os meus olhos.
As suas mãos perfumadas no meu rosto
São a água matinal, nos meus cabelos
O paladar dos cachos de uvas o tornam ébrio.
A chama do seu amor faz arder
As sombras. As maçãs na sua boca
São minhas, são meu alimento. A minha beleza
De jovem Sulamita o constrange, não sabe
Onde pôr a sua mão direita.
Enquanto a sua mão esquerda é um fogo
Debaixo da minha cabeça. Todos os meus ossos
Tremem com o açúcar da sua voz.

20-06-2016
© João Tomaz Parreira

https://ovelhaperdida.wordpress.com/2016/06/21/descritivo-do-amor-no-cantico-dos-canticos-inedito-de-joao-tomaz-parreira/ 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Fratria, poema de Jorge Wanderley

Bruegel, The Land of Cockayne

Fratria

Ontem na rua, eu os vi, amontoados,
e casuais, nos trapos, na fuligem
que invadia suas peles e nas úlceras
e curativos e nos lábios rotos
por socos e escorbuto; amontoados
e naturais, passando ora a garrafa
ora um pão seco e eram homens
e eram mulheres, que falavam,
que se entendiam,
e um deles mais que os outros
pontificava, e maximoso dava o tom
de uma filosofia já perdida
e mágica e infalível
a julgar pela voz com que falava.

Conversavam, os cinco ou seis, talvez,
indistinguíveis, todos, forma igual,
e iguais murmúrios e grunhidos.

Mas um deles
ergueu a cabeça e me encarou.

"Fui reconhecido", pensei comigo,
enquanto me afastava na direção da
multidão.

Ele me encarou como se perguntasse
"Que faz você aí, no meio dos limpos?
No meio dos brancos? No meio dos outros?"
E concluísse: "Você sabe que seu lugar é aqui."

Do livro O Agente Infiltrado (1999, Bertrand Brasil).

domingo, 22 de maio de 2016

VIAGEM




Não nos ajoelhamos nas margens
do Mar, mas nossos joelhos tremiam
com o chão pela cavalgada dos egípcios
O que seria de nós diante
das vagas fechadas do Mar Vermelho
se a vara de Moisés não esculpisse
nas águas moles dois muros de vidro.

Até hoje
nunca nos ajoelhamos
nem no Muro das Lamentações
nem à entrada das câmaras da morte
onde uma água falsa nos removeria
a vida.  

03-08-2015

©  João Tomaz Parreira 
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