terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A ORELHA FERIDA DE VAN GOGH






Ponho-me na orelha de Van Gogh
Como Van Gogh
Metia nas suas botas gastas
Os pés, que punha e tirava. A orelha
De Van Gogh levava consigo o crocitar
Dos corvos e o brandir de espigas
Contra os céus. Ponho-me no lugar
Do silêncio da orelha de Van Gogh
Ele fê-lo por necessidade, para ouvir
Apenas o que vem depois de nada.

27-05-2016 
© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Paul Claval: Fundamentalismos


(...) As situações de contato cultural abrem assim a via aos questionamentos. Fazendo descobrir outros códigos e outros sistemas de regras, convidam ao questionamento das bases do universo no qual se vive. Em face ao perigo de uma eventual subversão, a reação pode ser, ao inverso, a de se fechar no seu próprio sistema e condenar aqueles com os quais está se confrontando — é a lógica dos fundamentalismos. 
Nas sociedades onde a cultura é bastante diversa e aberta para que apareçam os grupos especializados na manipulação de seus aspectos abstratos, filosóficos, científicos, religiosos ou artísticos, o desenraizamento faz freqüentemente parte das técnicas de base da formação dos indivíduos: desde a Renascença, as elites europeias foram iniciadas, ao mesmo tempo, na sociedade de seu tempo, e na língua e na cultura da Grécia e da Roma antigas. A frequentação da Bíblia oferecia um terceiro pólo de distanciamento. A plasticidade da cultura ocidental, sua capacidade de mudar de códigos, de regras ou de normas sem perder sua unidade e sua inspiração profundas deve-se, sem dúvida, a este fato. 

in Geografia Cultural (Editora da UFSC, 2007)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

INSULTO, poema de Carlos M. Grunberg


Insulto

Chamaste-o judeu com magnífica fúria.
Gritaste-lhe judeu com soberba coragem.
A palavra judeu te parece uma injúria,
a palavra judeu te parece um ultraje.

Ele a tinha por símbolo de glória e de martírio,
guardava-a como um signo de trágica grandeza.
Pela sua pureza a equiparava a um lírio,
a um lírio a equiparava pela sua beleza.

Agora vê com olhos mais agudos e sábios.
Vê tão diafanamente como o que apalpa e toca.
Vê que todos os nomes ofendem em teus lábios,
que todas as palavras insultam em tua boca.

Tradução de Renata Pallotini

in Quatro Mil Anos de Poesia (J. Guinsburg, org.)


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

LA LUTTE AVEC L'ANGE



Começou o Anjo. Ou começou Jacob.
O que nos chega aos ouvidos é o rumor
do vento sobre as águas, sem asas só as mãos 
do Anjo voam e enlaçam o corpo de Jacob
o silêncio do mundo não consegue
perceber as suas vozes, Jacob responde
com as armas que tem, o braço forte
de quem amou duas mulheres.
O nome não sabiam um do outro, só o ardor
a combater a solidão, os corpos como cálices
onde terra e céu se misturaram no suor
até que a torrente do dia seja clara.
 17-01-2017
© João Tomaz Parreira


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Palavras Crianças no Jardim de Aula, novo livro de Pedro Marcos Pereira Lima


O escritor e poeta Pedro Marcos Pereira Lima acaba de nos brindar com sua mais nova obra. Palavras Crianças no Jardim de Aula, uma publicação da Editora Scortecci (selo Pingo de Letra) reúne poemas de incentivo à leitura de interesse geral, mas focadas notadamente no público infantojuvenil.

"O gosto pela leitura pode surgir através da poesia, desta forma aumenta o interesse em escrever. A poesia mexe com o imaginário dos jovens, das crianças, e dos adultos que ainda carregam a infância dentro de si levando-nos a expressar vontades, descobrindo que se pode brincar com as palavras.
aqui
poesia quer
contar histórias
que são das palavras
que vão se contando

mas não é só a história
em si que conta
é o contar

que não se calcula na contagem
quando o "o" troca-se por "a"
e contar vira cantar
de fantasias e realidades..."


O livro possui 60 páginas e custa R$ 30,00.
Interessados em adquirir a obra, entrem em contato pelo e-mail: pemarc@ig.com.br

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

AS VINHAS DA IRA




Esperamos que os nossos anjos
Que o Senhor diz que acampam ao nosso redor
Nos levem de volta a casa, as nossas mãos
Lavradas com o ácido das laranjas
E os nossos olhos
Tão gastos dos cachos de uvas
O nosso coração tão rasteiro nesta estrada de pó
Esperamos que os anjos nos levem a casa
Agora que o fumo do sonhos passou.

19-12-2016
© João Tomaz Parreira

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O IRMÃO DO PRÓDIGO







A música põe as sombras dos que dançam
nas paredes, a alegria
da casa com todos os enfeites para a festa
Alguém detém no limiar da porta os passos
ouviu a música e as danças
é o outro filho, estava ali quem era bom
e previsível, as suas mãos jamais desperdiçaram
e nunca tivera um cabrito sequer para alegrar-se
com os  amigos. O pródigo é o outro
Aquele sem vã glória, que tem só o regresso
a casa nos seus olhos.

13-12-2016

© João Tomaz Parreira
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